Técnico alagoano trabalha há 63 anos consertando máquinas de escrever

Durante muitas décadas, o barulho delas era a sinfonia que tomava conta de redações de jornal, escolas, repartições e a casa daqueles que trabalhavam com a arte da escrita. Mesmo com o surgimento dos computadores pessoais, que declarou o seu desuso, ainda existe, de maneira surpreendente, oferta e procura por máquinas de escrever. Em Alagoas, ainda há onde consertá-las e também quem prefira escrever utilizando teclas sem ligação alguma com a rede.

O primeiro registro de patente de um dispositivo feito para escrever mecanicamente é da Inglaterra, por Henry Mill, em 1714. Porém, um dos fatos mais curiosos sobre as máquinas de escrever é de que, muitos afirmam e a maioria desconhece, ela teria sido inventada por um brasileiro em 1861, o padre paraibano Francisco João de Azevedo, que desenvolveu uma máquina com 16 teclas e com mudança de linha através de um pedal. Azevedo participou de exposições e chegou a receber das mãos de D. Pedro II uma medalha de ouro. A invenção se chamou  “máquina taquigráfica” e não recebeu todo reconhecimento que merecia, nem seu inventor.

Contudo, mesmo com toda a popularização da divulgação instantânea de textos e produção de conteúdo via smartfones, algumas pessoas ainda se mantêm ligadas à máquina de escrever. Ainda há poucas lojas em Maceió que consertam e realizam manutenção nos aparelhos. Uma delas ocupa a Ladeira do Brito há 25 anos e pertence ao senhor Arlindo Lourenço de Melo, técnico que trabalha no ramo há 63 anos.

“Tenho 75 anos de idade, comecei aos 12 anos na oficina do seu Mário Lins Feijó, que ficava no Beco da Moeda, onde aprendi o ofício para ajudar no orçamento doméstico. Aos 25 anos, abri meu próprio negócio na Rua Augusta, a Rua das Árvores, pela empresa RUF e depois vim para a Ladeira do Brito, nesse prédio que foi da Escola Técnica do Comércio. Hoje, praticamente só existe eu na profissão”, informa o técnico.

Arlindo Lourenço de Melo mantém sua loja no Centro de Maceió e lembra os tempos de grande movimento de clientes (Fotos: Ascom Itec)

A “Casa das Máquinas”, loja do seu Arlindo, é repleta não apenas de máquinas de escrever, mas também de registradoras, calculadoras e um telefone modelo antigo que ainda está em uso com seu toque único. Tanto material deixa apenas um pequeno espaço para que o técnico execute sua função e também dão mostras da sua honestidade, visto que cada máquina ainda contém a nota e permanece devidamente embalada esperando os distraídos donos irem buscá-las. Porém, nem sempre foi assim.

“Tem pessoas que ainda usam máquinas de escrever. Mas hoje eu recebo para conserto esporadicamente. É uma por mês, duas, não é como antigamente. Antes, a pessoa deixava de manhã e dizia eu quero para de tarde, hoje deixa de manhã para vir numa tarde do outro ano, esquece, por isso tem esse montão de máquina aqui”, diz seu Arlindo, que já teve uma clientela bastante concorrida.

“A maioria dos meus clientes era formada por usinas. Trabalhei em 70% das usinas aqui de Maceió, mas havia também jornalistas que tinham máquina e consertavam comigo. Tinha o Nunes que fazia charges, o Jardir Carssela, que era jornalista também, uma série de amizades. Eu me dediquei mais às máquinas de escrever, manuais e elétricas, mas também máquinas registradoras e calculadoras. Quando comecei no Centro era época do bonde, tinha o Cinearte, que depois passou a ser o Cinema São Luís, depois fechou essa rede de cinemas. Tinha a Casa Flora, o Bilhar do Comércio, o Bar Colombo, o Continental. Tudo era muito diferente”, lembra seu Arlindo.

Para existir quem se dedique a consertá-las, há de ter ainda quem as utilize. Algumas pessoas e empresas ainda mantém máquinas de escrever, seja por precaução, estilo, saudosismo ou até mesmo pela objetividade trazida pelo objeto que não é, como quase tudo hoje em dia, ligado à Internet. É o caso do professor e artista Nilton Resende, que adquiriu uma máquina na tentativa de eliminar as distrações online.

“Fui para a máquina para poder escrever sem estar com todos os apelos dispersivos com que me deparo, e busco, sempre que estou num computador conectado à Internet, às redes sociais. Mas, escolhi uma máquina elétrica, para que não sentisse muita dificuldade e estranheza. Além disso, ela pede uma lentidão maior, e isso me ajuda em relação à escolha das palavras, ao ritmo das frases. Eu escrevo usando a máquina, depois leio, faço anotações no papel e só depois vou ao computador, com o texto mais maduro” explicou o professor.

Mesmo fazendo uma escolha um tanto inusitada para os tempos de hoje, Nilton Resende acredita que tantas evoluções como objetos antigos tem sua razão de ser e podem coexistir.

“Eu acho muito bonito o que é antigo, mas é ótimo que as coisas evoluam. Se eu pudesse, compraria aquelas máquinas com monitores, elas são um misto de máquina de escrever e computador. O computador é arretado, o problema é a pessoa se dispersar por conta de todos os recursos que ele tem. Então, não demonizo o PC. A máquina de escrever, para mim, foi a busca de um recurso para me facilitar a criação”, finaliza o professor.

Ascom – 29/11/2018