Saiba quem é o novo delegado que assume investigação do Caso Marielle

Há exatamente um ano, no dia 21 de março de 2018, o delegado Daniel Rosa tomava posse como titular da Delegacia de Homicídios da Baixada Fluminense (DHBF). Em uma dança das cadeiras promovida pela intervenção federal, ele substituiu Giniton Lages, que deixou o posto para assumir a DH da Capital. Antes de Giniton, a mesma trajetória entre as especializadas havia sido traçada por Fábio Cardoso. Por isso, não causou estranhamento no meio policial o anúncio do nome de Rosa para a delegacia da capital, na última terça-feira. Antes de entrar para as fileiras da Polícia Civil, Rosa foi assistente administrativo do Detran-RJ. Pelo bom desempenho na função, ele foi um dos 14 funcionários escolhidos para embelezar as páginas de um calendário produzido em 2005 pelo órgão. A foto do futuro delegado, que na época tinha 24 anos, estampou a capa do calendário, como mostra o trecho de uma reportagem publicada em dezembro de 2004 no site do Detran-RJ: “O assistente administrativo Daniel Freitas da Rosa, 24 anos, modelo da página inicial do calendário, elogia a iniciativa: ‘Valorização do funcionário é importante em qualquer empresa'”.

Durante o período em que esteve à frente da DHBF, Rosa promoveu uma redução significativa no volume de homicídios. A maior queda ocorreu em novembro: foram registrados 374 assassinatos, 36% a menos do que o mesmo mês no ano anterior. O resultado foi fruto de um trabalho de regionalização baseado no estudo das manchas criminais, como explicou o delegado em uma reportagem publicada pelo O GLOBO, em dezembro de 2018.

A desenvoltura à frente da DHBF é tida como a principal credencial de Rosa para o novo desafio que se descortina. Descrito por colegas de corporação como compromissado, competente e experiente, embora tenha sido nomeado delegado há pouco mais de cinco anos, Rosa terá toda a sua habilidade posta à prova ao conciliar a resolução das pilhas de inquéritos que se acumulam na DH da Capital com a segunda fase da investigação dos assassinatos da vereadora Marielle Franco e do motorista Anderson Gomes.

— A DHBF, dentro da divisão de homicídios, foi a que apresentou a melhor performance no ano passado. Mesmo com um recurso relativamente mais escasso do que as outras unidades, ela conseguiu reduzir em 19% o volume de homicídios dolosos, enquanto a capital reduziu em cerca de 10%. Apesar de a Baixada ter uma cultura de matança e estar sofrendo com a migração da milícia da Zona Oeste, além de outros problemas que agravam o quadro já histórico, Daniel Rosa conseguiu apresentar um resultado diferencial. O nome é bem escolhido nesse sentido, mas a capital é um outro desafio. Além dos mandantes do caso Marielle, ele terá um volume enorme de homicídios para investigar — avalia o ex-chefe de Polícia Civil Fernando Veloso.

Discreto em rede social

Divorciado e pai de um filho, Daniel Freitas da Rosa, de 38 anos, é conhecido pela discrição. Embora tenha criado um perfil no Instagram, fez uma única publicação desde que se inscreveu na rede social e sempre manteve a conta privada, o que significa que o conteúdo só pode ser visto por outros internautas mediante autorização.

O primeiro passo para entrar na Polícia Civil do Rio foi dado em 2008, quando Rosa foi aprovado no concurso para oficial de cartório da corporação. Nomeado em 2010, ele permaneceu no cargo por 1.270 dias, como registra o Diário Oficial do estado, antes de pedir licença não remunerada para se dedicar aos estudos.

Em março de 2013, Rosa prestou concurso e foi aprovado para o cargo de delegado na Polícia Civil de Minas Gerais. Mas a experiência fora do Rio durou pouco tempo. No fim daquele mesmo ano, o delegado foi aprovado no concurso de delegado para a Polícia Civil do Rio. Sua nomeação foi assinada pelo então governador Sérgio Cabral, no dia 19 de dezembro de 2013. De acordo com o decreto publicado no Diário Oficial, Rosa se classificou na 48ª posição, entre os 133 nomeados.

Trajetória na DH

Como delegado da Polícia Civil do Rio, Rosa sempre se dedicou aos homicídios. Sua trajetória começou na delegacia da capital, onde foi durante anos um dos principais assistentes de Rivaldo Barbosa e, posteriormente, de Fábio Cardoso, tendo trabalhado junto com o próprio Giniton Lages. Na especializada, o delegado se destacou ao participar de investigações que ganharam exposição na mídia, como a morte do médium Gilberto Arruda, no Lar Frei Luiz, na Zona Oeste da cidade, em 2015.

A trajetória de Rosa foi acompanhada de perto por Rivaldo Barbosa, enquanto este ocupava os cargos de delegado titular da DH da Capital e diretor da divisão de homicídios. Para Rivaldo, Rosa adquiriu a experiência necessária para assumir a delegacia especializada.

— Ele é o que a gente chama de um delegado completo. Passou por todos os locais da DH. Foi plantonista, assistente e depois titular na Baixada. Agora, assume a DH da Capital. Era o caminho natural dele, que é extremamente competente, assim como o Giniton. Ele é tranquilo e profissional. É o que se espera de um delegado em uma grande delegacia — afirma Rivaldo.

O delegado titular da 59ª DP (Caxias), André Leiras, que se formou na mesma turma que Daniel Rosa e trabalhou junto com ele na DH da Capital, não duvida da capacidade do colega diante da nova missão, diz o Terra.

— No período em que trabalhamos juntos na DH da Capital, ele era um exemplo de competência e dedicação. Tanto que depois tornou-se o titular da DHBF. É um delegado jovem e muito compromissado. Acho que essa será uma grande oportunidade de ele mostrar seu trabalho — afirma Leiras.

A saída de Giniton

Com o anúncio de Daniel Rosa para a DH da Capital, o delegado Giniton Lages irá fazer um intercâmbio de quatro meses na Itália, a convite do governador Wilson Witzel. A saída de Giniton causou burburinho por ocorrer exatamente após a conclusão da primeira etapa da investigação do homicídio de Marielle e Anderson, que culminou com as prisões de dois suspeitos: o policial militar reformado Ronnie Lessa e o ex-PM Élcio Queiroz.

Nos corredores da especializada o comentário é de que o fator decisivo para a sua saída foram as diferenças entre ele e o atual diretor do Departamento Geral de Homicídios e Proteção à Pessoa (DGHPP), Antônio Ricardo Lima Nunes. Giniton foi surpreendido pela notícia, e ficou sabendo através da publicação feita na coluna de Lauro Jardim, na semana passada.

Escolhido pelo ex-chefe de Polícia Civil, delegado Rivaldo Barbosa, para ser o titular da DH, Giniton recebeu a incumbência de elucidar o caso Marielle, três dias após o crime. As reviravoltas durante a investigação causaram um certo desgaste de Giniton, mas ele seguia firme focado no caso. Até que, com a mudança de governo, Antônio Ricardo assumiu a direção do DGHPP, criado pelo secretário de Polícia Civil, Marcus Vinicius Braga. O pano de fundo para os desentendimentos entre Giniton e Antonio Ricardo foram justamente as investigações do homicídio da parlamentar e do motorista.

Para manter sigilo total, o titular da DH só abria o caso para dois investigadores da sua inteira confiança e as duas promotoras do Grupo de Atuação Especial de Combate ao Crime Organizado (Gaeco). O medo de vazamento era grande. Embora Antônio Ricardo fosse o diretor, o seu acesso aos dados do inquérito, inclusive por computador, era bloqueado.

Num evento no Palácio Guanabara no último dia 13, o governador, Wilson Witzel, disse que, em reconhecimento ao trabalho de Giniton no caso Marielle, sugeriu que o delegado se dedicasse a um “programa de intercâmbio” com a polícia italiana. Ao fim da cerimônia, Witzel afirmou que Giniton foi convidado pessoalmente por ele. Segundo Witzel, Giniton estava “esgotado” após conduzir as investigações da primeira etapa do caso e teria a chance de “trocar experiências” entre o Rio e outras instituições estrangeiras. Witzel descartou qualquer indicação de que Giniton foi afastado ou exonerado, afirmando que o delegado apenas assumirá novas funções.

21/03/2019